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🔥 MARIA LACERDA DE MOURA: A Mulher Que Desafiou Igreja, Fascismo e o Sistema

UMA MENINA “PERIGOSA” PARA A SOCIEDADE DA ÉPOCA

📚 A mineira rebelde que enfrentou o conservadorismo brasileiro e virou símbolo de liberdade intelectual

Por Ney Vilela – escritor e professor Doutor

1Ney Vilela Professor Doutor e escritor de Ubatuba Linkedin https://br.linkedin.com/in/ney-vilela-93b2a07a6 de maio – MARIA LACERDA DE MOURA

Maria Lacerda de Moura era mineira de Manhuaçu, nascida em 16 de maio de 1887. Sua família, espírita e anticlerical, morava na Fazenda Monte Alverne. Com a Proclamação da República, seus pais – acreditando nos princípios laicos do Novo Regime – decidiu procurar uma vida nova na cidade de Barbacena. De fato, o pai recebeu um cargo como oficial no Cartório de Órfãos; a mãe estabeleceu-se produzindo doces.

Mas o laicismo republicano não chegou imediatamente às escolas: por conta da postura familiar em relação à religião, Maria Moura recebeu o tratamento de ‘minoria perigosa’, que os bispos mineiros reservavam para os protestantes e os espiritualistas de várias tendências. Esta realidade impactou o início dos estudos de Maria, em um externato administrado por freiras (“Asilo de Órfãos”). Mais tarde, aos 12 anos, ela foi transferida para a “Escola Normal Municipal de Barbacena”, onde estes problemas não diminuíram…

🎓 A PROFESSORA QUE ENFRENTOU O ANALFABETISMO E O PRECONCEITO

Apesar destes percalços, Maria formou-se professora, em 1904. E, após o governo republicano, no ano de 1906, retirar a influência da Igreja sobre o Ensino Mineiro, Maria tornou-se diretora (1908) do Pedagogium (Museu Pedagógico, criado por Benjamin Constant). Como educadora, Maria Lacerda engajou-se nos esforços oficiais, para enfrentar o analfabetismo. E ela encontrou tempo para participar, também, em várias ações beneficentes.

Em 1912, Maria enviou as suas primeiras crônicas para um jornal local; em 1918, publicou o seu primeiro livro, “Em Torno da Educação”, constituído de crônicas e conferências que realizou em Barbacena sobre o tema. Esta publicação permitiu que Maria Lacerda estabelecesse contatos com intelectuais de Belo Horizonte, São Paulo, Santos e Rio de Janeiro, além do início de correspondências com José Oiticica e Galeão Coutinho.

📖 A AUTODIDATA QUE DEVOROU IDEIAS REVOLUCIONÁRIAS

Vivendo em virtual isolamento intelectual, Maria desenvolveu seus conhecimentos quase que como autodidata, lendo textos de Maria Montessori e dos educadores anarquistas Paul Robin, Sebastien Faure e Francisco Ferrer y Guardia. Resulta, destes estudos, o livro “Renovação”, que lhe rende conferências na Federação Operária Mineira (Juiz de Fora) e na cidade de Santos. Enfim, a cidade de Barbacena estava ficando “pequena demais”, para Maria Lacerda e ela se mudou para São Paulo. Estávamos em 1921 e Maria estava com 34 anos.

Chegando à capital bandeirante, Maria Lacerda se inseriu nos movimentos associativos femininos, que se multiplicaram e se diversificaram nos anos 1920. Isto a levou ao encontro da bióloga feminista Bertha Lutz. E desse encontro resultou o surgimento da Federação Internacional Feminina, cujo programa consistia em “canalizar todas as energias femininas dispersas no sentido da cultura filosófica, sociológica, psicológica, ética, estética — para o advento da sociedade melhor”.

✊ FEMINISMO, JORNALISMO E IDEIAS QUE ASSUSTAVAM O PODER

A postura militante e as ideias progressistas de Maria Lacerda atraíram a atenção de grupos políticos socialistas e anarquistas, que a convidaram para escrever em jornais como “A Plebe”, “A Lanterna” e “O Trabalhador Gráfico”. Maria aceitou, desenvolvendo um trabalho jornalístico que se expandiu para os jornais “O Combate” (São Paulo), “A Tribuna” (Santos), e O Corymbo (Rio Grande – RS). Também é desta época suas colaborações para a revista cultural “Renascença” (1923) e a publicação do livro “Religião do Amor e da Beleza” (1926).

Maria Lacerda, na capital paulista, manteve sua ação educativa, fora dos quadros oficiais do Estado. Mas deixou a “Federação Internacional Feminina” por considerar que o movimento de mulheres – liderado por Bertha Lutz – lutava pelo direito ao voto feminino, sem maiores preocupações com as trabalhadoras assalariadas brasileiras.

🕊️ A ANARQUISTA QUE PREGAVA LIBERDADE TOTAL

Isso a aproximou dos anarquistas, o que não significou comunhão de projetos e de ações, embora ambos compartilhassem o pacifismo e o anticlericalismo. Maria Lacerda – de qualquer forma – aproximou-se do anarquismo individualista do francês Han Ryner, dando-lhe “a noção mais alta da liberdade ética… livre de escolas, livre de igrejas, livre de dogmas, livre de academias, livre de muletas, livre de prejuízos governamentais, religiosos e sociais”.

As ideias anarquistas levaram Maria Lacerda a viver (entre 1928 e 1937) em uma comunidade agrícola na região de Guararema, ao lado de anarquistas individualistas, e de desertores espanhóis, franceses e italianos da Primeira Guerra Mundial. Tal comunidade exercia um pacifismo ativo e não tinha hierarquias, mesclando trabalho manual e intelectual. Além disso, militava por posturas comportamentais permissivas, recusando as normas tradicionais da sociedade.

⚠️ QUANDO O FASCISMO COMEÇOU A CRESCER NO BRASIL

Foi em Guararema, que Maria Lacerda chegou ao seu período de maior produtividade intelectual, tanto em número de livros e artigos, quanto pela repercussão de suas conferências.

Mas o ambiente, do lado de fora da comunidade de Guararema, era de avanço reacionário: cresciam – em número e influência – os grupos integralistas, que deram cores tupiniquins ao fascismo. Diante da notícia da fundação de um “Partido Católico Brasileiro”, por iniciativa do cardeal D. Sebastião Leme, Maria Lacerda mobilizou a “Coligação Nacional Pró-Estado Leigo”.

🔥 A MULHER QUE ENFRENTOU O CLERO E O FASCISMO

Pouco depois, na Argentina, Maria conheceu o revolucionário brasileiro Luís Carlos Prestes, então exilado, e o entrevistou para uma matéria em “O Combate”. Em 1934 e 1935, Maria Lacerda escreveu, seus dois livros antifascistas: “Clero e Fascismo – Horda de Embrutecedores!” e “Fascismo – Filho Dileto da Igreja e do Capital”.

O surpreendente é que Maria Lacerda, por conta desses dois livros, multiplicou inimigos entre… os anarquistas e comunistas! Os anarquistas não admitiam que Maria apresentasse Jesus Cristo como exemplo de ação anarquista; os comunistas abominavam a postura pacifista de Maria Lacerda.

💔 PERSEGUIÇÃO, EXÍLIO INTERNO E SOLIDÃO

E os desgostos existenciais se multiplicaram, para Maria: em 1935, seu filho adotivo, Jair, ingressou na ação Integralista Brasileira; em 1937, após o Golpe do Estado Novo, a repressão policial atingiu a comunidade de Guararema, com invasões de domicílio, apreensão e queima de livros, inquéritos, denúncias, prisões e deportações.

Maria Lacerda foi obrigada a voltar para Barbacena, ganhando a vida como professora de preparatórios, morando na antiga Rua da Morte. Um ano depois, muito abalada emocionalmente, muda-se para o Rio de Janeiro.

🌙 A ÚLTIMA FASE: ESPIRITUALIDADE, ASTROLOGIA E SILÊNCIO

Em 1942, morando na Ilha do Governador, buscou refúgio no espiritualismo. Acabou fazendo a leitura de horóscopos, na Rádio Mayrink Veiga, aplicando seus estudos de astrologia. Sua última conferência, “O Silêncio”, foi pronunciada na Fraternidade Rosa-Cruz Antiqua, em 1944, onde discorreu sobre a obra de Pitágoras.

Morreu no ano seguinte, em 20 de março, pouco antes do final da Segunda Guerra Mundial.

🕯️ “NÃO MATAR. NÃO JULGAR. NÃO SERVIR À INIQUIDADE.”

Taxada de feminista, reformista, comunista, anarquista, ou sexóloga, Maria Lacerda recusou todos estes rótulos. Viveu livre, de acordo com seus princípios, que ela mesma formulou em uma conferência, no ano de 1935:

“Abster-se de toda função pública de ordem administrativa, judiciária, militar; não ser prefeito, juiz, polícia, oficial, político ou carrasco. Não aceitar funções que possam prejudicar a terceiros. Não ser banqueiro, intermediário de negócios, explorador de mulheres, advogado, explorador de operário. Não ser operário de jornais clericais ou fascistas. Recusar ser o instrumento de iniquidades. Sacrificar o corpo, se for preciso — do número de coisas indiferentes para o estoico — a fim de não sacrificar a razão, a liberdade interior ou a consciência. Não denunciar, não julgar, não reconhecer nenhum ídolo. (…) Não matar. Resistência ativa, ação direta, a nova tática revolucionária de suprema resistência ao mal, a não violência.”

Maria Lacerda de Moura foi exatamente assim.


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