Cantinho da Priscila SiqueiraNotícias

🏠 O Que será que Acontece Todos os Dias com 300 Mil Pessoas que envergonha o Brasil

São rostos e histórias de cortar o coração que ninguém olha ou vê

 

 

Campanha da Fraternidade 2026 coloca a crise habitacional no centro do debate nacional

Texto: Priscila Siqueira
Fotos: Marcus Ozores


Caros (as) amigos (as),

Lembro-me muito bem: em frente a um supermercado na cidade de São Paulo, havia uma porção de barracas de acampamento. De uma delas, certa manhã, saiu uma menina toda arrumada, de avental branco, indo para a escola.

O supermercado permitia às famílias que moravam nas barracas usarem o banheiro. Quando um homem percebeu meu espanto ao saber que aquela menina morava ali, explicou: “É minha filhinha. Perdi meu emprego, não pude mais pagar aluguel, e agora minha esposa, meus filhos e eu estamos morando aqui.”

Foto Marcus Ozores – Flanneur sobre sp

🚿 Quando a pobreza é tratada como sujeira

Poucos dias depois, numa madrugada, meu filho presenciou uma cena chocante: um carro da Prefeitura de São Paulo jogava água com um potente esguicho sobre as barracas. Ao amanhecer, elas haviam desaparecido da calçada.

 

O que desapareceu ali não foram apenas barracas improvisadas. Foram histórias, foram sonhos, foram famílias tentando sobreviver com o pouco que lhes restava.

🏙️ Do litoral à rua: o retrato da exclusão

Em outra ocasião, participei de uma reunião do Povo de Rua, no bairro do Glicério, região central da capital paulista — um local onde, diziam, nem a polícia entrava. Era um trabalho conduzido por onze religiosas uruguaias, que lutavam pela dignidade de pessoas excluídas socialmente.

Foto Marcus Ozores – Parece mas não é um galã de cinema em Sampa

Um homem em situação de rua — sujo, exalando o abandono que a sociedade lhe impôs — aproximou-se de mim ao saber que eu era do litoral. “Trabalhei como pedreiro em Ubatuba, construindo hotéis. Eu era muito bom no que fazia. Quando a obra acabou, vim buscar trabalho na capital. Não encontrei nada. O dinheiro da pensão terminou… e acabei dormindo na rua. Veja como estou agora…”

✝️ Campanha da Fraternidade 2026: moradia como clamor nacional

 

Nesta Quarta-feira de Cinzas, a Igreja Católica no Brasil inicia sua Campanha da Fraternidade 2026, trazendo como tema central a falta e a precariedade de moradias no país.

Desde 1961, a campanha propõe reflexões profundas sobre feridas sociais brasileiras, convocando não apenas católicos, mas todos os que se indignam diante da injustiça e do sofrimento humano.

A Pietá da Avenida Paulista – Foto Marcus Ozores

Segundo o texto-base da Campanha, 6 milhões de famílias brasileiras necessitam de moradia digna, o que representa 8,3% dos domicílios do país.

Além disso, 26 milhões de famílias vivem em áreas de risco, realidade comum também no litoral norte paulista. A face mais cruel dessa tragédia social atinge cerca de 300 mil pessoas vivendo nas ruas, número que cresceu de forma alarmante na última década.

🩹 As chagas continuam abertas

O cartaz da Campanha mostra, ao fundo, uma grande cidade. Em primeiro plano, num banco de praça, um homem dorme.

Seus pés descalços revelam chagas — uma clara referência às marcas do Cristo crucificado.

Foto Marcus Ozores

Caros (as) amigos (as),

Jesus não nos disse que estaria no meio de nós? Não estará Ele na figura do mais excluído, do mais pobre, daquele que muitos preferem não ver?

Quando olhamos para quem vive nas ruas, estamos diante de um problema urbano — ou diante de uma ferida moral que nos interpela como sociedade?

 


I

Priscila Siqueira

Jornalista Priscila Siqueira, Ponta Grossa (PR), 08/07/1939. Formação: Universidade do Brasil (RJ). Atuou na Folha de São Paulo, Estadão, Jornal da Tarde, Rádio Eldorado e Valeparaibano. Destacou-se por denunciar a expulsão dos caiçaras com a abertura da BR-101, tema de seu livro “Genocídio dos Caiçaras” (1984). Especializou-se em questões ambientais, cobrindo a Constituinte de 1988. Foi fundadora da SOS Mata Atlântica, do MOPRESS e presidiu a Sociedade de Defesa do Litoral Brasileiro. Participou do Congresso Mundial contra a Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes, em Estocolmo (1996), promovido pela UNICEF e pela rainha Sílvia da Suécia. Foi professora nas Escolas : Normal de São Sebastião, Universidade Salesiana, e de Pós graduação na Fundação Escola de Sociologia e Política de SP na área de Sociologia

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