Jornalismo antigo e atual: 80 anos de mudanças que refletem no jornalismo do Litoral Norte
Por Pitágoras Bom Pastor
Quem foram e como escreviam os melhores do jornalismo do Litoral Norte nos últimos 80 anos? A linguagem no jornalismo mudou muito nesse período, à medida que a comunicação veio se tornando mais rápida a partir do rádio.
Os mais antigos eram literatos, estilo Machado de Assis.
Com o surgimento do rádio, precisaram mudar. Veio a fase do “senhor diretor”, com destaque às pessoas além do fato.
Porém, atualmente, quem busca audiência na internet tem que apelar para uma linguagem ultramoderna. Nesse sentido , o texto tem que ser viral como um trend. Além disso precisa ter o rigor de um Stephen Hawking, e ao mesmo tempo ser emocionante como uma série da Netflix . além de sintética como um tuíte.
Os Pilares da boa informação atualmente
Deste modo , a informação precisa ter um pouco de cada coisa. Além disso precisa ser descoberta pelo leitor no Google. Ademais precisa prender sua atenção na leitura. e principalmente gerar likes, shares e comments.
Então, novo jornalista precisa — um misto dos melhores da nossa região: Altamir, Monteiro Jr. & Dorothy, Priscila,Salim e Liv Soban.
Como é o estilo desses papas do jornalismo regional
Esses dias, numa roda de conversa via WhatsApp com um grupo de jornalistas da antiga, me veio a ideia de escrever este texto para refletir sobre o papel de cada geração na imprensa regional e na linguagem jornalística.
Daí concluí que: Altamir Tibiriçá Pimenta foi o ensaísta, pois fazia o jornalismo à moda de Ruy Barbosa. Também conclui que Monteiro Jr e Dorothy, foram os renovadores para o jornalismo pós anos 40/50. E que Priscila Siqueira e Salim Burihan, os pioneiros jornalistas diplomados touxeram a escola iniciada por Samuel Waine, no Ultima Hora Finalmente, então , veio Liv Soban, nos anos 2000. representante da linguagem contemporânea.
Pitágoras Bom Pastor, ao lado de seus mestres: Altamir na poesia e Monteiro Jr. no Jornalismo
Aliás eu, convivi com todos. Aprendi com os antigos e continuo aprendendo com os mais novos.
📜 O tempo em que escrever era pensar o mundo
Antes da década de 1940, o jornalismo brasileiro era essencialmente ensaístico. O texto não se limitava à informação: era reflexão, interpretação e, muitas vezes, literatura.
Naqueles tempos , o jornalista era um intelectual público. Escrevia-se para formar opinião, não apenas para relatar fatos e também para garantir o seu sustento.
Altamir : o nosso Ruy Barbosa
Nesse contexto, a linguagem era mais elaborada, com períodos longos e forte presença de adjetivação. Havia liberdade estilística, e o texto carregava a marca pessoal de quem escrevia.
Assim , no Litoral Norte, esse estilo encontrou eco na obra de Altamir Tibiriçá Pimenta, que atuou em Caraguatatuba de 1953 até aproximadamente 1990.
Aliás Altamir fundou, em 1953, A Voz do Litoral, o primeiro jornal de Caraguatatuba — seu verdadeiro lugar de fala. Sua arma para a defesa de seus ideais políticos e também a sua plataforma para divulgar a sua poesia autoral clássica.
Nesse sentido, seu estilo bonito mantinha viva essa tradição: escrever era também interpretar a realidade. Ele era um clássico polemista como o grande jonalista Ruy Barbosa e um literato como Machado de Assis, que também fora jornalista.
📰 O modelo “senhor diretor” e a disciplina da notícia
Entre as décadas de 1940 e 1960, o jornalismo brasileiro passa por uma transformação.
Surge o modelo conhecido como “senhor diretor”, caracterizado por uma escrita mais formal, hierárquica e disciplinada.
O texto deixa de ser puramente opinativo e passa a seguir padrões mais rígidos de organização.
Essa mudança acompanha o crescimento das redações e a profissionalização do ofício.
Nesta fase a notícia ganha estrutura, e o jornalista passa a responder a uma linha editorial mais definida.
No Litoral Norte, esse modelo foi representado por Monteiro Jr. e Dorothy Hertel, vindos da imprensa da capital, atuando em Caraguatatuba entre 1973 e meados da década de 1980.
Sua escrita refletia esse momento: mais objetiva, porém ainda marcada pela formalidade e pelo respeito à hierarquia editorial.
O destaque às pessoas e o apagamento da mulher
Monteiro comprou de Roberto Vallin Klaus e de José Carlos Barreto o Jornal Impacto.
Aliás, foi no Impacto que me iniciei no jornalismo, como fotógrafo e como repórter, em 1977.
Dessa época eu me lembro que ele me orientava a seguir o tradicional “quem, como, onde e por quê” — os pilares da notícia, mas também exigia que eu anotasse o nome de todas as pessoas importantes que estivesse presentes nos eventos.
Já Altamir, morou na minha casa. Com ele eu me inspirei na poesia e na política. Aliás ele escrevia meus discursos quando eu era lider do Centro Cívico na Ecola Adaly, entre 1975 e 1977.
As Mulheres , o machismo e o elitismo da época
No entantos, as mulheres raramente tinham seus nomes citados.
E quando as mencionavam , eram tratadas no texto como : “ Doutor Fulano e sua senhora ; a senhora de” ou “o casal tal”. Assim: o Dr. José Dias Paez Lima e sua senhora, ou o casal Paez Lima— em vez de José Dias e sua mulher Neusa Teixeira Dias.
Isso é um retrato fiel de uma época com seus valores misóginos e elitistas, que tem ser visto com os olhos daquele momento.
🧠 Samuel Wainer e a ruptura: o jornalismo ganha voz
A grande virada ocorre com o chamado “novo jornalismo”, impulsionado por Samuel Wainer, especialmente com o jornal Última Hora, a partir da década de 1950.
Nesse novo modelo a linguagem se aproxima do leitor, torna-se mais direta, mais humana e mais popular.
Entáo o jornalista deixa de escrever apenas para elites e passa a dialogar com o povo.
Dessa forma a notícia ganha ritmo, clareza e impacto.
Priscila Siqueira, Salim Burihan e Liv Soban: a era dos diplomados.
No entanto, com a chegada de jornalistas com formação universitária, essa mudança acontece também no litoral -(A faculdade de jornalismo começa no Brasil em 1947).
Antes disso, o jornalista frequentemente era um escritor que virava repórter e tinha no jornalismo seu ganha pão. Afinal com raras excessões como Paulo Coelho e Jorge Amado, escrever livros nunca deu lucro nem sustento ao seu autor.
A Modernidade chega com os jornalistas formados na universidade
Daí vem a nova era e a modernidade da imprensa, mais objetiva e utopicamente imparcial.
Então essa nova fase vem com Priscila Siqueira, que se formou na década de 1960 na UFRJ, e depois com Salim Burihan, formado na década de 1980 pela Cásper Líbero/FIAM. Ambos trouxeram técnica, método e modernidade wayneriano à imprensa regional. No entanto, os jornalistas da antiga, me refiro a Atamir, Monteiro e Dorothy, não mudaram os seus estilos, aliás igualmente bonitos e eficientes.
Minha vivência com os diplomados
Eu acompanhei Priscila em diversas reportagens suas, na década de 1980. Nessas ocasiões, eu era seu motorista particular e seu fotógrafo — além, é claro, de ser leitor dos seus textos como assinante do Estadão.
Já com Salim, trabalhei na Rádio Oceânica, ( num período curto) onde cobrimos a Guerra das Malvinas quando conseguimos dar ´noticias ao vivo estilo CNN, sem nenhum equipamento moderno, só na base de escutar rádios velozes como a Jornal do Brasil, com uma caneta e um papel na mão e reescrever as noticias urgentes, com cerca de 10 minutos depois do fato.
Depois disso, estivemos juntos na assessoria de comunicação do prefeito Jair Nunes. Ele como assessor de imprensa da prefeitura , e eu como assessor de marketing emprestado pelo Governo do Estado.
🌐 Do jornalismo dos anos 1990 ao digital
A partir da década de 1990, o jornalismo passa por nova revolução.
Isso se dá devido à chegada da internet. Daí torna-se necessária uma mudança não apenas nos meios de distribuição ( Google invés de bancas de jornais ) , mas também na propria liguagem (mais sinteticas e atrativa). Então , texto se encurta, torna-se mais direto e passa a competir com a velocidade da informação.
Ainda mais , no ambiente digital, surge o SEO (Search Engine Optimization), ou mecanismo de otimização de buscas) -, a escrita voltada para buscadores (Google e outros), e a necessidade de captar atenção em segundos no disputado espaço digital.
O jornalista agora escreve para leitores — e também para algoritmos.
É ai nesse novo cenário que se destaca Liv Soban, também egressa da FIAM , turma de 2002, a mesma de Maju Coutinho, Guga Chacra, entre outras celebs da comunicação .
Já como filha da geração milenial Liv se adaptou facilmente. Tanto que se especializou em branding e content marketing, representando a fusão entre jornalismo e comunicação estratégica.
A Encantadora das Palavras
A minha amizade com Liv surgiu quando fiz um resgate histórico de seu pai, o arquiteto Dedé Soban, que, sofrendo de um câncer mortal, não estava merecendo respeito do prefeito de Caraguatatuba da época (2008 a 2012).
Dede-Soban-Xilogravura-de-Arnaldo-Passos
Aliás, como em todo mal tem um bem, essa circunstância talvez tenha servido de inspiração para Liv escrever seu livro mais famoso — o best-seller , O Encantador de Pessoas, no qual o meu texto foi, para minha honra, inserido. Se o prefeito quis diminuir o Dedé, por desconhecer sua real importância histórica , o resultado foi inverso, ele expandiu sua fama para todo Brasil, como alias previra o sábio da Galileia ao ensinar :. ‘ Os humildes serão exaltados e os que se exaltarem serão humilhados”.
Desde então, Liv Soban é a minha guia nas novas linguagens da comunicação.
Inclusive, por sua sugestão, fiz uma especialização em jornalismo digital na Faculdade Descomplica, em 2022.
O livro encantador de pessoas encantou o Brasil com a historia do arquiteto rock and Roll, Dedé Soban
✍️ As reformas ortográficas e o desafio de atravessar gerações
Para além de tudo isso, um jornalista que atravessou essas fases também enfrentou outro desafio silencioso: as sucessivas reformas ortográficas.
Entre as principais: • 1943 — padronização da ortografia no Brasil • 1971 — simplificações de acentuação • 1990/2009 — acordo ortográfico unificado
Aliás, Reaprender a escrever fez parte do ofício.
Isso não foi apenas uma mudança técnica — foi cultural.
🌊 O Litoral Norte como síntese de uma história maior
A história do jornalismo no Litoral Norte reflete, em escala humana, a evolução do jornalismo brasileiro.
Ou seja vai do ensaísmo à objetividade. e também vai do formalismo à agilidade do mundo digital.
Altamir, Monteiro, Dorothy, Priscila, Salim e Liv não são apenas nomes.
Mais que isso são fases. Também são estilos. e finalmente são momentos de uma mesma história.
Aliás, não ficam nada a dever a qualquer grande jornalista do Brasil.
Estrelas caiçaras que brilharam em todo Brasil
Eu me lembro que Altamir me dizia que um caiçara que trabalhava no Jornal da Tarde, na década de 1970, seu primo e contemporâneo, lhe dizia: “Altamir — esse lugar que estou era para ser seu.”
A Mágica da Priscila , o Pioneirismo de Salim no rádio e os voos da Liv
Da mesma forma , Salim Burihan , além do destaque na Imprensa regional e de ter criado jornais como o Expressão Caiçara e se destacar no gigante Valeparaibano, também trabalhou — e ainda trabalha — para a Folha e para o UOL. , para a Jovem Pan e etc.., sem contar o seu pioneiro no rádio esportivo no litoral norte, na Rádio Oceânica, onde criou a programação esportiva e foi o pioneiro na narração de jogos ao vivo no litoral norte, totalmente desprovido de equipamentos adequados.
Já a Liv Soban tem uma grande agência de publicidade em São Paulo e está na carreira de escritoraprofissional; Além disso está nos EUA onde prepara-se para uma carreira internacional como escritora.
Por sua vez Monteiro e Dorothy vieram da grande imprensa da capital, como o Correio Paulistano e outros grandes jornais e revistas já extintos. Atamir, antes de Priscila chegou a ser correspondente do Estado de São Paulo em Caraguatatuba.
Gigantes que preferiram ser a voz das matas, das águas e das gentes.
Assim eles todos ( exceto Liv) optaram por ficar no Litoral Norte para ser as vozes das matas, das águas e das gentes do Brasil, especialmente do caiçara vítima do capitalismo predatório.
Alias , a Liv e Priscila escrevem hoje para a RádioC2. Já Salim Burihan tem o jornal Notícias das Praias que nasceu como jornal Impresse e hoje é o mais relevante site de hard news do Litoral Norte, e que também se destaca em materias nacionais na especialidade de praias, esportes náuticos, turismo e correlatos .
✍️ Conclusão
Assim finalizo certo de que com os fatos históricos da imprensa nacional e seus reflexos na imprensa local , demonstro e provo que a evolução da linguagem jornalística não é apenas uma questão técnica. Mas também é histórica. É cultural e acima de tudo , humana Como se vê mudam as palavras, os meios e as regras, mas permamece a essência:
Contar o mundo com responsabilidade.
E talvez o maior desafio do jornalista não seja só acompanhar as mudanças…Mas não perder a sua voz no meio delas, nem se vender aos poderosos de plantão .
Por Pitágoras Bom Pastor
A evolução da linguagem jornalística não é apenas técnica.
Também é histórica. É cultural. É humana.
Aliás podem mudar as palavras, os meios e as regras — mas permanece a essência:
Contar o mundo com responsabilidade.
E talvez o maior desafio do jornalista não seja acompanhar as mudanças…
Mas não perder sua voz — nem se vender aos poderosos de plantão.
Por Pitágoras Bom Pastor
Texto autoral baseado na experiência prática do autor na imprensa do litoral norte, desde de 1977, e em referências clássicas da história do jornalismo brasileiro.
📚 Referências
ECA-USP – Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo Ana Paula Goulart Ribeiro – História da Imprensa no Brasil Samuel Wainer – Minha Razão de Viver Academia Brasileira de Letras – Reformas ortográficas Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990) Google Search Central – Diretrizes de SEO
Nota do Autor : Quando nos referimos aos melhores jornalistas do Litoral Norte, estamos falando do quesito texto e reportagem. Porém voltaremos a falar do tema, abordando aqueles jornalistas que foram também muito bons na gestão de suas mídias, como José Massariol, super ético, organizado e trabalhador, Roberto Spíndola que renovou e profissionalizou a Rádio Oceânica e Hugo Apuléo que também tinha uma boa visão como jornalista empreendedor