Boiçucanga resiste à invasão: Mulher caiçara luta pra preservar sua cultura em São Sebastião
7 razões para admirar Lavínia Caiçara de Boiçucanga
🌊 Lavínia caiçara, uma mulher, uma história, um povo inteiro
Lavínia caiçara
Minha gente caiçara,
Ainda em pleno mês de março, mês da Mulher, gostaria de poder escrever sobre tantas mulheres deste nosso litoral norte, mulheres guerreiras comprometidas com o destino de suas famílias e de suas comunidades.
Vou então, como exemplo, discorrer um pouco sobre a vida de Lavínia caiçara de Boiçucanga, uma caiçara de Boiçucanga, praia do litoral sul do município de São Sebastião.

🐍 A origem de Boiçucanga: entre lenda e memória ancestral
Nos anos 80, como jornalista na ativa, conheci primeiro José Matos, o “Maquininha”, como todos o chamavam e era o pai de Lavínia. Foi ele que me contou sobre uma famosa lenda do lugar, onde existiriam uma espécie de cobra muito venenosa nesta praia, com uma enorme cabeça, que os indígenas chamavam de “Boia”/cobra; “Açu”/grande; “Canga”/cabeça. Daí o nome da praia: Boiçucanga.
✊ A caiçara que enfrentou o poder e venceu
Lavínia herdou do pai o amor por sua comunidade e empatia para lutar por ela. Formou a Associação de Amigos de Boiçucanga, que conseguiu liberar a Ilha dos Gatos de ser privatizada.
Durante o Governo de Getúlio Vargas, a concessão de uso dessa ilha tinha sido dada ao empresário norte-americano Rockfeller. Como ao prazo da concessão havia expirado, havia um novo pedido de privatização da ilha.
Essa caiçara liderou um protesto que chegou aos altos escalões do Governo e conseguiu provar que a Ilha dos Gatos é um tradicional refúgio dos pescadores artesanais em ocasiões de tempestades no mar.

🎣 O pequeno pescador contra o sistema
Os ancestrais da família Matos moravam no centro de São Sebastião. Mas nos anos 20, mudaram-se para essa praia tornando-se grandes pescadores.
Lavínia, que faz parte da Associação de Pescadores Artesanais de Boiçucanga, acredita que a pesca artesanal irá acabar se não forem tomadas medidas para protegê-la:
“A Polícia pega o pequeno pescador que joga no mar os peixes minúsculos ainda vivos. Dizem que é para salvar a vida marinha. Mas as traineiras, em alto mar, continuam a trabalhar numa boa… E estas jogam no mar milhares de peixinhos mortos.”
🛣️ Depois da estrada, nada foi como antes
É este um dos motivos porque Lavínia preferia seu litoral antes da abertura da estrada Rio-Santos:
“A gente vivia sem divisões religiosas, fazendo nosso artesanato que a SUTACO (Subsecretaria do Trabalho Artesanal das Comunidades) comprava todos os meses. Além deste dinheiro que entrava sempre para as famílias, nós produzíamos bananas que eram vendidas em Santos. Depois da estrada, tudo foi proibido e muitos de nós acabaram jardineiros e zeladores nas casas de turistas.”
🧺 Cultura ameaçada: o artesanato pode desaparecer
Atualmente o artesanato em taboa corre o mesmo perigo de desaparecer que correm os pescadores artesanais.
A artesã Eleuza de Matos, que trabalha com taboa, afirma:
“Nós não podemos tirar a taboa do mato por causa da preservação do meio ambiente. Mas os loteamentos dos turistas aterram os locais onde a taboa está, matando todas elas e tudo bem…”
💃 A dança que mantém viva a alma caiçara
Lavínia se preocupa muito com a preservação da cultura caiçara. Ela formou um grupo de Fandango em sua praia cuja estampa das camisetas das fandangueiras é a flor que conhecemos por “hibisco”.
“Mas nós, caiçaras, chamamos esta flor de ‘habena’, seja qual cor ela tiver. Por isso, a escolhemos como símbolo do Fandango de Boiçucanga, uma flor de nossa comunidade.”

🌺 A flor que virou símbolo de um povo
A paulistana Maria Aparecida da Silva, que há anos mora em Boiçucanga, é uma das fandangueiras:
“Quando cheguei aqui, tinha habena de todas as cores espalhadas pela praia. Agora é difícil achar uma.”
Maria Aparecida é contundente:
“Eu me sinto caiçara e quero, quando morrer, ser enterrada aqui.”

📚 Ensinar para não deixar morrer
Lavínia também tem uma grande preocupação de levar aos mais moços o entendimento das atividades caiçaras.
Além de palestras em escolas públicas da região sobre o saber caiçara, ela traz alunos de escolas particulares da capital para visitar o cerco de pesca, com a ajuda da Marinha para maior segurança dos jovens.
“Todo o dinheiro arrecadado com essa atividade vai para o pescador que levou os meninos no cerco”, diz Lavínia.

✍️ Quando a luta também vira poesia
Mas o que é mesmo encantador nessa caiçara é sua veia poética.
“Quando estava na escola minha professora incentivava fazermos poesia. E eu encontrei nela.”
A poesia de Lavínia fala de sua comunidade, do modo de ser caiçara, da natureza que rodeia sua praia.
Como um poema em que compara uma fonte aí existente e o mar. Nela ela recorda que a fonte nos dá água para beber e o mar, o peixe para comer.https://www.youtube.com/watch?v=PEmOCNIdti



