Terra e Gente Pri SiqueiraPolitica e Meio Ambiente

A Máscara Verde: Quando o “Ambientalismo” Serve Para Cercar Praias e Excluir Pobres

A dura realidade por trás do 'ambientalismo' de elite

A caiçara Angélica Cast, da praia de Castelhanos em Ilhabela, defende com unhas e dentes a terra de seus ancestrais da especulação imobiliária. Ela resume sua luta em uma frase que corta como faca: “A luta ambiental que não leva em conta a luta de classes é jardinagem”.

Durante anos atuando como jornalista no litoral norte de São Paulo, testemunhei inúmeras vezes a profunda verdade contida nas palavras dela. O que muitas vezes se vende como “amor à natureza” não passa de uma máscara verde para esconder o egoísmo e a segregação.

 A “Segurança” que Esconde a Indiferença

Lutei contra o fechamento das ruas de acesso à praia de Guaecá com portões. Na época, um senhor, dono de uma casa no local, era meu maior opositor. Seu argumento? Segurança para os proprietários.

Meu contra-argumento era sempre o mesmo: “Se isso fosse sobre segurança, todas as ruas do Brasil estariam cercadas à noite”.

Certa tarde de domingo, ele me ligou. Para minha surpresa, não era para reclamar, mas para relatar que uma família com crianças morava debaixo de uma ponte na praia.

“Que bom”, pensei, “ele finalmente enxergou o problema social”. Engano meu. Sua conclusão foi de cortar o coração: Eles vão acabar destruindo a ponte”.

 “Que se Danem as Crianças”

Em uma conversa com supostos “defensores ferrenhos” da natureza de Itamambuca, comentei minha dúvida entre dedicar-me à causa ambiental ou aos direitos de crianças abandonadas.

A resposta de um dos líderes foi a mais pura expressão da máscara verde:

-“Que se danem as crianças abandonadas no Brasil. Eu quero é a natureza preservada aqui, onde passo minhas férias”.

Os Mecanismos da Apropriação: Moulin e Tabatinga

A estratégia se repete de norte a sul do litoral.

Um loteamento que não é condomínio, mas age como um. Com uma guarita irregular, apropria-se de ruas públicas e impede o acesso visual e físico à praia. A justificativa? “Preservar plantando árvores”. O resultado? Aumento do valor dos terrenos e perda do espaço público.

Tabatinga (Caraguatatuba)

Um grande empreendimento fecha uma passagem centenária de caiçaras**. O motivo alegado? Preservação ambiental e segurança. O resultado real? **Privatização de um caminho tradicional** e exclusão da comunidade original.

 Arranquemos a Máscara

Estes são apenas alguns dos incontáveis casos que presenciei. É hora de dar o nome correto às coisas: preservar apenas o que me beneficia não é ambientalismo, é egoísmo territorial disfarçado de verde.

A verdadeira luta ambiental é inseparável da luta social. Pobreza, falta de saneamento e moradia precária são as maiores agressões ao meio ambiente, pois degradam a vida humana que faz parte dele.

Como bem definiu a OMS, saúde é o completo bem-estar físico, mental e social. Um planeta saudável não tem espaço para apartações disfarçadas de jardinagem.

A máscara verde precisa ser arrancada. E, como bem nos lembra Angélica Cast, só isso mostrará a verdadeira face da luta pela nossa Casa Comum: uma luta por justiça.

 

Priscila Siqueira

Jornalista Priscila Siqueira, Ponta Grossa (PR), 08/07/1939. Formação: Universidade do Brasil (RJ). Atuou na Folha de São Paulo, Estadão, Jornal da Tarde, Rádio Eldorado e Valeparaibano. Destacou-se por denunciar a expulsão dos caiçaras com a abertura da BR-101, tema de seu livro “Genocídio dos Caiçaras” (1984). Especializou-se em questões ambientais, cobrindo a Constituinte de 1988. Foi fundadora da SOS Mata Atlântica, do MOPRESS e presidiu a Sociedade de Defesa do Litoral Brasileiro. Participou do Congresso Mundial contra a Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes, em Estocolmo (1996), promovido pela UNICEF e pela rainha Sílvia da Suécia. Foi professora nas Escolas : Normal de São Sebastião, Universidade Salesiana, e de Pós graduação na Fundação Escola de Sociologia e Política de SP na área de Sociologia

Artigos relacionados

4 Comentários

  1. This article powerfully exposes the hypocrisy of certain environmental movements, prioritizing elite leisure over social justice. Priscila Siqueira’s experience and analysis are crucial for understanding the intersection of environmentalism and inequality in Brazil. A must-read for anyone seeking genuine environmental activism.unblock game

  2. This article powerfully exposes the hypocrisy of certain environmental movements, prioritizing elite leisure over social justice. Priscila Siqueira’s experience and analysis are crucial for understanding the intersection of environmentalism and inequality in Brazil. A must-read for anyone seeking genuine environmental activism.Nano Banana free

  3. This article powerfully exposes the hypocrisy of certain environmental movements, prioritizing elite leisure over social justice. Priscila Siqueira’s experience and analysis are crucial for understanding the intersection of environmentalism and inequality in Brazil. A must-read for anyone seeking genuine environmental activism.

Botão Voltar ao topo