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Uma lei manda lembrar: por que Caraguatatuba não pode esquecer 1967

Se fosse hoje, seriam 4 mil mortos: o alerta de 1967 que ainda preocupa


🕊️ A lei que manda lembrar

Poucos sabem, mas Caraguatatuba possui uma lei que transforma a memória em obrigação.

Em 1989, o então vereador Donizete Prado de Freitas (PDT) apresentou uma proposta que determinava a reflexão pública permanente sobre a maior tragédia da história da cidade: a Catástrofe de 1967. A lei 1565,  aprovada em 14 de abril de 1989, transforma 18 de março em dia municipal do meio ambiente e cria a semana do meio ambiente

O MOTIVO DA LEI ESQUECIDA

A lei nasceu da compreensão de que aquele episódio não poderia ser tratado como lembrança ocasional, mas como compromisso coletivo de  não só homenagear os mortos com luto oficial mas alertar os vivos sobre o riscos de repetição do evento. A ideia partiu surgiu a partir de uma diálogo entre o vereador e seu assessor particular, então  acadêmico de Direito e jornalista, Pitágoras Bom Pastor.

Mais do que uma norma, a lei representa um pacto: o de não esquecer.


🌧️ O dia em que a terra desceu

No dia 18 de março de 1967, Caraguatatuba foi atingida por uma chuva extrema.

Em poucas horas, o solo saturado não suportou. Encostas da Serra do Mar cederam. Morros inteiros desceram.

A lama arrastou casas, árvores, animais e famílias inteiras.

Bairros desapareceram. A cidade ficou isolada.

O número oficial registra centenas de mortos. Mas, até hoje, há quem diga que nunca se soube exatamente quantos ficaram soterrados.

Não foi apenas uma enchente.

Foi o colapso da terra.

Miliatares ficam alojados na Escola de Pesca da Colonia Z8


🧍‍♂️ Um menino de 6 anos

Eu tinha  6 anos e 11 meses  no dia fatídico.  Minha casa situada próxima relativamente à fazenda dos ingleses no bairro do Tinga, seviu de abrigo para  21 pessoas que haviam perdido tudo.

Lembro do medo, da correria, dos rostos marcados por histórias que nunca foram escritas. Mais tarde em 1996 fiz duas matérias para o Jornal Expressão Caiçara contando um pouco dessas histórias, as quais assinei com pseudômino de Dinomar Allegria.

Capa do Jornal da Trade 1967 – Foto do APMC

O QUE FIZERAM COM O MORRO DO CRUZEIRO?

No dia 18 de março, um grupo que fugia das águas e das lamas . saiu da fazenda em direção ao Tinga  e ,  para se salvar, subiu num  morro  perto da  capela do bairro e ali conseguiu se salvar , após fazer uma  promessa de erquer ali  um cruzeiro. Salvos fizeram o cruzeiro. Anualmente, o Tinga inteiro, acompanhado desses sobreviventes ia rezar naquele local no dia 18 de março.

Procissão na Igreja do Tinga em direção ao Morro do Cruzeiro, arte de Jaures Moreira

O cruzeiro já não existe mais. O morro foi cercado pelo seu proprietário. Mesmo destino teve o cemitério em que foram enterradas as vítimas moradoras da fazenda, num total ato de insensibilidade dos atuais proprietários que impedem visitas. Provavelmente o cemitério nem exista mais.


⚠️ Lembrar é proteger

A lei de 1565 1989 não trata apenas do passado.

Ela fala do presente — e do futuro.

Caraguatatuba continua sendo uma região de risco. A Serra do Mar continua ali. As chuvas continuam caindo.

A diferença entre tragédia e prevenção está naquilo que a sociedade decide fazer com o que sabe.


🧭 O começo de uma série

Este é o primeiro de sete textos que o Radioc2 publica em memória da Catástrofe de 1967.

Durante os próximos dias, vamos revisitar histórias reais, ouvir relatos, entender causas e refletir sobre o que ainda precisa ser feito.

Não para lembrar por lembrar.

Mas para não repetir.


🪶


A lei existe, a tragédia ensinou — mas o risco ainda está presente em Caraguatatuba


Esquecer não é neutro.
Esquecer é permitir que tudo aconteça de novo.

Pitagoras Bom Pastor

Pitágoras Bom Pastor de Medeiros, Poeta, jornalista e advogado, pós graduado em jornalismo digital, apartidário, a favor do estado de bem estar social

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