NotíciasTerra e Gente Pri Siqueira

Como a Pedofilia é Escondida Debaixo do Tapete no Brasil e no Mundo

O Mercado Sombrio da Exploração Sexual Infantil

Ainda bem que a sociedade brasileira parece ter aberto seus olhos para um problema gravíssimo e degradante: o uso sexual de crianças e adolescentes por adultos.

O testemunho do influenciador Felca, denunciando o que acontece com crianças e jovens nas redes sociais em nosso país, propiciou até a mobilização no Congresso Nacional, que promete atacar o problema.


Um problema antigo e mundial

Problema este que é antigo no Brasil e até mesmo em todo mundo.

Em 1996, fui chamada para representar a CNBB – Conferência dos Bispos do Brasil, na Conferência Mundial sobre a Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes, na cidade de Copenhague, Suécia.

A exploração sexual comercial implica que, além do abuso sexual do menor, há um ganho capitalista por parte do explorador — como tráfico de crianças, pornografia infantil e exploração da prostituição infantil.

Quem enfrenta esse crime em nível mundial é a Scotland Yard, a polícia da Inglaterra. Na época, um dos grandes fornecedores de vídeos pornográficos com crianças para os Estados Unidos eram os países da Península Nórdica, incluindo a Suécia.


O choque dos vídeos

Estávamos em uma reunião sobre vídeos com crianças em conteúdo sexual, coordenada pela Scotland Yard.

De um lado, os defensores dos vídeos — empresários da região responsáveis pelo material.
De outro, quem era contra — um grupo formado majoritariamente por mulheres do mundo todo.

Os empresários alegavam que os vídeos não faziam mal às crianças, pois seria apenas “brincadeira”.

Então, o policial inglês, pedindo licença, nos mostrou alguns dos vídeos.

  • Em um deles, uma menina de seis ou sete anos chorava sem parar, enquanto um homem de 40 anos tentava desistir de filmar diante do sofrimento da garota. Mas os pais insistiam para ela continuar, pois com aquele dinheiro poderiam reformar a casa.
  • Em outro vídeo, um menino em idade de trocar os dentes já sorria com ar malandro, como quem se adapta à loucura dos adultos para sobreviver.

Muitas das crianças filmadas eram de países como Laos, Vietnã e Tailândia.

Aliás, a Tailândia é o único país no mundo em que a prostituição de crianças é legalizada. Lá, usar sexualmente uma criança ou adolescente não é considerado crime.

Os imperadores afirmavam que a legalização duraria apenas “uma geração”, até que o país se estabelecesse economicamente. Essa geração nunca chegou ao fim…

Conheço homens brasileiros que economizam o ano inteiro para passar férias na Tailândia a fim de fazer sexo com crianças.


O silêncio e a cumplicidade

Um amigo meu, ligado à luta contra esse crime, chegou a afirmar:

“As crianças da classe média ou alta são mais vulneráveis do que as das classes baixas. Aí, um escândalo a mais ou a menos pouco importará. Já nas classes mais altas, a mãe chega a ser cúmplice, fingindo não ver, para não estragar o status que a família tem na sociedade”.

Quando fazia parte do Comitê de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, em uma reunião em São Paulo, um promotor de Recife nos contou:

“Prendemos um homem que havia estuprado suas quatro filhas. Ele começava quando a menina completava dez anos. Quando chegava aos 14, mandava a filha se prostituir. Perguntei como tinha coragem de fazer isso com o próprio sangue. Ele respondeu, admirado com minha ignorância: ‘Então o senhor não sabe que a filha é do pai? Pecado é a mãe comer o filho!’

Também tenho o testemunho de uma prostituta que, presa aos 13 anos em uma unidade da FEBEM, contou que a assistente social responsável pelas meninas as enviava à noite para a rua se prostituírem e entregar o dinheiro para sua “cuidadora”.


Uma luta que não pode parar

Arre lá, é duro não, primas e primos queridas e queridos…

Trabalhar com esse tema machuca muito a nossa alma. Mas nosso compromisso com a Justiça e o Amor não pode nos deixar desistir.

Se todos nós lutarmos juntos por um mundo fraterno, onde todos sejam respeitados — principalmente os mais vulneráveis, os que não têm como se defender, como as crianças — então, um dia, a gente chega lá.

Sempre com Fé e Coragem!


 

Priscila Siqueira

Jornalista Priscila Siqueira, Ponta Grossa (PR), 08/07/1939. Formação: Universidade do Brasil (RJ). Atuou na Folha de São Paulo, Estadão, Jornal da Tarde, Rádio Eldorado e Valeparaibano. Destacou-se por denunciar a expulsão dos caiçaras com a abertura da BR-101, tema de seu livro “Genocídio dos Caiçaras” (1984). Especializou-se em questões ambientais, cobrindo a Constituinte de 1988. Foi fundadora da SOS Mata Atlântica, do MOPRESS e presidiu a Sociedade de Defesa do Litoral Brasileiro. Participou do Congresso Mundial contra a Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes, em Estocolmo (1996), promovido pela UNICEF e pela rainha Sílvia da Suécia. Foi professora nas Escolas : Normal de São Sebastião, Universidade Salesiana, e de Pós graduação na Fundação Escola de Sociologia e Política de SP na área de Sociologia

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo